
Os números não definem a estratégia de uma empresa. Mas mostram onde vale a pena fazer as perguntas certas.
Para os transitários portugueses, 2025 terminou com um sinal que merece atenção — e os primeiros dados de 2026 ajudam a perceber porquê.
As exportações portuguesas de bens ficaram praticamente estagnadas, crescendo apenas 0,1%, enquanto as importações aumentaram 4,5%. Portugal terminou o ano com aproximadamente €78,97 mil milhões em exportações e €112,07 mil milhões em importações, agravando o saldo da balança comercial em cerca de €4,76 mil milhões, segundo os dados do INE.
À primeira vista, poderíamos concluir que 2025 foi simplesmente um ano pouco expressivo para as exportações.
Para quem gere uma empresa de freight forwarding, essa leitura é insuficiente.
A questão estratégica não é apenas saber se Portugal exportou mais ou menos.
É perceber para onde estão a deslocar-se os fluxos, que mercados permanecem estruturalmente relevantes e onde uma empresa deveria concentrar recursos comerciais para 2027.
É aqui que os dados começam a ficar interessantes.
Onde está o volume dos transitários portugueses?
Quando analisamos os fluxos bilaterais portugueses de 2025, a concentração europeia é evidente.
No ranking construído a partir dos dados do INE, Espanha ocupa destacadamente a primeira posição, com cerca de €57,2 mil milhões de comércio bilateral.
Seguem-se Alemanha (€24,2 mil milhões), França (€17,3 mil milhões), Países Baixos (€9,3 mil milhões), Itália (€9,29 mil milhões) e Estados Unidos (€7,06 mil milhões).
Fonte: elaboração própria a partir de dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), Estatísticas do Comércio Internacional de Bens, 2025.
Só com Espanha, Portugal exportou aproximadamente €20,4 mil milhões e importou €36,8 mil milhões em 2025.
Para um CEO de uma empresa transitária, os números confirmam o óbvio: a Europa continua a dar escala.
Mas saber onde existe volume não significa saber onde existe a melhor oportunidade.
Volume não é estratégia
Um dos erros na definição de uma estratégia comercial é transformar dimensão de mercado automaticamente em prioridade.
Um corredor pode movimentar milhares de milhões de euros e, ao mesmo tempo, apresentar elevada concorrência, pressão sobre preços e pouca diferenciação entre operadores.
Um mercado menor, por outro lado, pode ser mais interessante quando existe especialização, conhecimento operacional, capacidade multimodal ou domínio de determinada vertical.
Por isso, separaria três variáveis:
volume, relevância logística e oportunidade estratégica.
Não são necessariamente a mesma coisa.
A Europa dá escala. O Atlântico merece atenção.
Os Estados Unidos aparecem como o sexto mercado do ranking, com aproximadamente €7,06 mil milhões de comércio bilateral, mas apresentam uma configuração logística diferente dos principais mercados europeus.
Na análise dos dados de 2025 por modo de transporte, os principais mercados europeus apresentam forte peso do rodoviário, enquanto no fluxo Portugal–Estados Unidos o marítimo assume uma posição dominante.
Há outro dado relevante: Portugal exportou cerca de €4,66 mil milhões para os EUA e importou aproximadamente €2,40 mil milhões, resultando num saldo positivo superior a €2,26 mil milhões.
Fonte: elaboração própria a partir de dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), Estatísticas do Comércio Internacional de Bens, 2025.
Isto não significa que todos os transitários devam apostar nos Estados Unidos.
Significa que vale colocar uma pergunta na mesa:
Estará a empresa demasiado concentrada nos corredores tradicionais e pouco posicionada nos mercados onde poderia construir maior diferenciação?
2026 mudou a leitura
O primeiro trimestre começou com um sinal negativo: as exportações portuguesas de bens caíram 6,5% em termos homólogos, enquanto as importações cresceram 2,7%.
No segundo trimestre houve uma inversão relevante.
Segundo a estimativa rápida do INE, as exportações cresceram 10,0% e as importações 8,2%, comparativamente ao mesmo trimestre de 2025.
Q1 2026: exportações -6,5%
Q2 2026: exportações +10,0%
Fonte: Instituto Nacional de Estatística (INE), Estimativa Rápida do Comércio Internacional de Bens — 2.º trimestre de 2026, publicada em 29 de julho de 2026.
Ainda é cedo para transformar esta inversão numa tendência anual. Mas, para quem gere capacidade, equipa comercial, procurement, parceiros e investimento em marketing, uma mudança desta dimensão merece acompanhamento.
Junho reforçou o sinal — e trouxe um alerta
Em junho de 2026, as exportações de bens cresceram 10,0% face a junho de 2025.
As importações cresceram ainda mais: 19,6%.
O défice comercial de bens atingiu €3,632 mil milhões naquele mês, agravando-se em €1,122 mil milhões relativamente a junho de 2025.
Mas existe um detalhe fundamental para a logística: parte da evolução nominal está associada aos preços.
Em junho, o índice de valor unitário aumentou 4,9% nas exportações e 6,1% nas importações.
Fonte: Instituto Nacional de Estatística (INE), Comércio Internacional de Bens — junho de 2026, publicado em 7 de agosto de 2026.
Portanto:
crescimento em euros não significa necessariamente crescimento equivalente em volume físico.
Para um transitário, esta distinção é relevante. O aumento do valor do comércio internacional não se traduz automaticamente num aumento proporcional da procura por transporte.
Por isso, uma análise comercial não deveria olhar apenas para euros. Quilogramas, tipo de mercadoria, origem, destino e modo de transporte ajudam a perceber onde o crescimento económico pode efetivamente transformar-se em oportunidade logística.
O INE disponibiliza dados mensais de exportações e importações em euros, quilogramas e por classificação de mercadorias.
É nesse cruzamento que uma análise macroeconómica começa a transformar-se em inteligência comercial.
Primeira decisão para 2027: escolher onde competir
É comum encontrar empresas transitárias que oferecem:
Air Freight. Sea Freight. Road Freight. Customs. Warehousing.
Tudo para todos.
Eu começaria o planeamento de 2027 por uma escolha:
Quais são os cinco corredores em que queremos ser realmente competitivos?
A partir daí, a análise torna-se objetiva: que produtos circulam nesses corredores? Quem os importa e exporta? Qual o modal predominante? Temos capacidade operacional? Temos parceiros fortes? Existe margem? Conseguimos construir diferenciação?
Só depois vem a última pergunta:
Como vamos chegar comercialmente a essas empresas?
Esta sequência parece óbvia. Na prática, muitas vezes acontece ao contrário.
Marketing deve executar uma escolha estratégica
É aqui que o marketing para transitários deixa de significar simplesmente publicar no LinkedIn e passa a funcionar como ferramenta de posicionamento e desenvolvimento de negócio.
Imagine que uma empresa define Portugal–Estados Unidos como corredor estratégico para 2027.
Essa decisão deveria refletir-se no website, SEO, Google Ads, conteúdos, casos de sucesso, prospeção, contas-alvo, parceiros internacionais e indicadores comerciais.
A comunicação passa a demonstrar competência naquele corredor. A prospeção identifica os exportadores e importadores relevantes. A equipa comercial trabalha contas definidas. E os indicadores mostram se a estratégia está efetivamente a gerar oportunidades.
Isso é posicionamento.
Não dizer ao mercado que a empresa faz transporte marítimo para os Estados Unidos.
Mas fazer com que o mercado associe a empresa a essa competência.
Segunda decisão para 2027: trocar intuição por evidência
2025 fornece uma base estrutural.
O primeiro semestre de 2026 começa a mostrar movimentos.
E ainda existe tempo para transformar esses sinais em decisões para 2027.
Não para tentar prever exatamente o que acontecerá, mas para responder a três perguntas:
Onde estamos hoje?
Onde os dados mostram oportunidade?
Onde queremos estar quando 2027 começar?
Uma estratégia comercial séria demora a produzir resultados. É necessário identificar mercados, construir bases de potenciais clientes, desenvolver posicionamento, testar campanhas, qualificar leads, estabelecer relações e medir resultados.
Começar esse processo em janeiro de 2027 significa, na prática, começar tarde.
O dado mais importante não está no relatório
O INE consegue mostrar quanto Portugal exportou e importou.
Consegue mostrar para onde, quais mercadorias, quanto pesaram e como os fluxos estão a evoluir.
Mas existe uma pergunta que nenhum relatório estatístico consegue responder:
Em quais desses fluxos a sua empresa decidiu ser realmente relevante?
Essa decisão pertence à gestão.
E talvez seja esta a discussão que deveria estar hoje na agenda de um CEO de uma empresa transitária:
não em quantos mercados conseguimos operar, mas em quais queremos ser escolhidos.
Porque 2027 não começa em janeiro.
Para as empresas que já estão a decidir onde competir, 2027 já começou.

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